sábado, 23 de janeiro de 2016

Só Deus sabe o quanto eu senti falta..


Só Deus sabe o quanto eu senti falta de me sentar de frente pra você, e conversar durante horas sobre as pequenas coisas da sua vida cotidiana, as linhas intermináveis que você tem escrito e nunca publicado, a política, o preço do cigarro, o clima úmido de Buenos Aires, o último livro do seu escritor favorito, o próximo eclipse. 

Ter você de novo ao alcance da mão, poder te tocar de vez em quando sem prerrogativas, sem pretenções, apenas porque você está ali, ao alcance dos olhos, poder assistir a longa curva do seu sorriso se formar quando eu falo alguma bobagem sem sentido, sem juízo, apenas por ser pra você. 

Você cortou o cabelo mais curto, e agora parece mais jovem que há 10 anos atrás – você e essa sua capacidade de enganar o tempo com as suas bruxarias herdadas talvez de alguma bisavó, talvez aprendidas em algum livro que encontrou por aí. E o mesmo feitiço no olhar. E o mesmo feitiço no modo como coça o queixo devagar, abaixando um pouco a cabeça. E o mesmo feitiço de sempre.

Uma outra coisa você manteve também exatamente a mesma, definitiva talvez, porque sinto que se voltarmos a nos encontrar daqui a outros dez anos (eu, outros dez anos mais velho e melancólico, você, outros dez anos mais bruxa), você ainda vai conservar esse gesto que te define mais que a sua própria cédula de identificação – segurar os seus gauloises com três dedos, e bater a cinza de lado, com o polegar, como se os acariciasse, antes de tragá-los novamente. 

Isso e o perfume que se desprende da sua pele e do seu cabelo quando você acaba de sair do banho foram duas coisas que não se alteraram nem um milímetro, nem um segundo, depois de tanto tempo, como se aí o tempo não pudesse ter conseguido tocar as pontas enrugadas dos dedos, como se aí é que existissem as três letras que lembram ao meu coração, depois de tanta distancia, quem você é: 

Imagem de girl, black and white, and hair

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