quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Amo-te às dez da manhã,



Amo-te às dez da manhã, e às onze e as doze do dia. Amo-te com toda minha alma e com todo o meu corpo, às vezes, nas tardes de chuva. 
Mas às duas da tarde, ou às três, quando me ponho a pensar em nós dois, e tu pensas na comida ou no trabalho diário, ou nas diversões que não tens, ponho-me a odiar-te surdamente, com a metade do ódio que guardo para mim.

Depois volto a amar-te, quando dormimos juntos e sinto que foste feita para mim, o que de algum modo me dizem o teu joelho e tua barriga, que as minhas mãos me convencem disso, e que não há outro lugar onde eu vá, melhor que o teu corpo. Tu vens toda inteira ao meu encontro, e os dois desaparecemos um instante, entramos na boca de Deus, até que eu te digo que tenho fome ou sono.
Todos os dias te amo e te odeio irremediavelmente. E há dias também, há horas, em que não te conheço, em que me és estranha como a mulher de outro. Preocupam-me os homens, preocupo-me eu, distraem-me as minhas mágoas. É provável que não pense em ti durante muito tempo. Já vês. Quem poderia te amar menos que eu, meu amor?
Jaime Sabines.

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