
Há uns anos, bem no inicio do namoro, ele demonstrou ter ciúmes de mim. Achei bonitinho. Ele tentou disfarçar, mas eu percebia ele desviando o olhar e rindo sem graça enquanto negava quando eu perguntava se ele estava com ciúme. Eu tinha meus amigos, ele também tinha amigas. Normal. Pouco tempo depois, ele pegou meu celular. Ok, eu não tenho nada a esconder mesmo. Então ele começou a ler minhas conversas com amigos e perguntar coisas como "porque esse apelido?" "Vc diz "te amo" pra amigos?" "Porque você conversou tanto tempo com esse rapaz aqui?" "Você já namorou esse cara?". Achei invasivo, mas respondi cada pergunta honestamente. "É apelido de escola. Sim, eu digo "te amo" pra amigos. Não sei, só conversamos, ora. Não eu nunca namorei esse cara". Ele pediu desculpas, disse que era ciúme bobo, disse que eu era a coisa mais preciosa da vida dele e tinha medo de me perder. Tudo bem. Umas semanas depois ele me viu abraçar um amigo. Era aniversário desse amigo, eu parabenizei e abracei-o. Ele viu de longe, se aproximou com raiva e gritou comigo. Disse: "que merda é essa, ein? Que safadeza é essa?". Eu só pedi calma. Tive medo dele bater no meu amigo, que estava olhando sem entender nada. Peguei o braço dele e o levei pra longe, expliquei que era um amigo e estava o parabenizando. Nunca me senti tão constrangida em toda minha vida. Fui pra casa e não atendi suas ligações, nem respondi suas mensagens pedindo desculpa. Ele foi na minha casa, conversamos e eu o perdoei. Houve um tempo de paz. Ele me levou flores, chocolates e fazia inúmeras declarações. Mas a paz durou pouco... Um mês depois ele sentiu raiva pois eu saí com um amigo. Esse amigo tinha acabado de perder uma pessoa querida e me ligou precisando de alguém pra conversar, desabafar, de um ombro pra chorar. Eu avisei a ele, expliquei a situação e fui. Ele consentiu. Depois que cheguei, vi que ele tinha mudado de ideia. Assim que entrei no meu quarto, ele estava sentado na minha cama. Levantou, segurou meu braço apertando com força, enquanto eu tentava soltar. Gritou com o rosto bem perto do meu: "você é só minha!". Eu comecei a chorar. Nunca senti tanto medo. Ele nunca tinha agido assim. Mas depois ele chorou e pediu perdão. Falou que era só medo, só insegurança. Então eu perdoei de novo. E de novo, de novo, de novo. Ignorei o primeiro empurrão, o primeiro grito, o primeiro xingamento. Dizia que era só um erro, que não ia acontecer novamente, que a gente se amava e tudo ia se ajeitar.
Mas eu preciso te contar uma coisa: as coisas não se ajeitaram. Vou terminar logo esse texto antes que ele chegue e veja isso. Estou cheia de hematomas. Ele me ameaça e ameaça minha família, se eu contar das surras. Vivo num casamento desgraçado. Quando vi, já estava grávida e me sentia presa, enrolada naquilo. Eu devia ter terminado no primeiro empurrão, no primeiro grito, no primeiro xingamento. A gente acha que vai mudar o outro, mas é besteira, menina.
Esse é um testemunho não vivido por mim, mas, eu garanto, vivido por milhares de outras pessoas. Se você está num relacionamento abusivo, saia. Saia agora! Não deixe pra depois. Você não vai mudar essa pessoa, então não se prenda a quem te faz sofrer. Tudo isso começa pequeno e ganha proporções que podem te tirar a vida. Não corra esse risco. O amor não é justificativa pro ciúme exagerado e o comportamento possessivo. Apenas saia!
Não espere o segundo xingamento. O segundo grito. O segundo empurrão.
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