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| AdiSe A Inveja Tem Sono Leve..cionar legenda |
Quando eu tinha dezoito anos, trabalhava numa padaria. Eu era caixa, sempre andava de unhas bem feitas e um cliente sempre as elogiava. Um dia, o gerente me avisou que tomasse cuidado com ele, já que ele costumava ameaçar as moças que trabalhavam lá, dizendo para elas que se elas não fossem jantar em sua casa, ele jogaria uma maldição nelas e elas sofreriam muito pela desfeita. Todas acabavam indo por medo.
Um dia, ao entregar seu troco, ele pegou minha mão e disse:
- Hoje você vai na minha casa tomar champagne comigo. E se você se recusar, vou colocar teu nome na boca do sapo e nunca mais você vai ter paz. Eu sorri e disse:
- Não, senhor. Eu não vou não. Meu nome é (disse meu nome completo), coloque meu nome na boca de quem o senhor quiser, em mim o senhor não toca. Vai pegar seu troco, ou não?
Ele saiu enfurecido, jogando maldição até na minha quarta geração. O gerente, assustado, me disse que nunca tinha visto uma menina fazer aquilo. Que eu tomasse cuidado. Eu voltei no outro dia, no outro e no outro, e ele sim, mudou de horário pra não ter o desprazer de me encontrar de novo.
Eu nunca temi o outro. Sempre fui peituda, valente. Em algumas situações me estrepei por causa disso; nem sempre isso é bom. Eu sempre desafiei a inveja, a maldade. Sempre fui um caso perdido pra quem tenta me destruir. Estou sempre desapontando quem não acredita em mim. Minha visão da vida sempre foi às claras, pés no chão. Ameaças não tiram meu justo sono, gritos sufocados não me desestabilizam. Nunca vi o outro como meu grande inimigo. Meu maior rival está dentro de mim. Sou minha inimiga quando não acredito no que sou capaz. Sou minha maior inimiga quando deixo que me coloquem rédeas, quando aceito rótulos, quando permito que palavras amarguradas me desestabilizem.
Nunca fui de esperar nada de ninguém. Nunca fui de criar expectativas, salvo alguns deslizes, daqueles que você quebra a cara pra nunca mais. Sempre fui muito pá-pum. Deu? Deu. Não deu? Amém. Nunca fui fã de entrar em disputas nem picuinhas. Esse lance de "ser invejada" nunca fez meu tipo; nunca me colocou medo. Não tenho medo se a inveja tem “sono leve”, se o olho é de sapo ou de boi, e mania de perseguição me dá pena. Sei que a minha simplicidade formiga a muitos, minha despretensão em "brilhar" mais que o outro, desconforta. Não estapeio quem está na fila comigo, não ocupo lugares que não são meus, não puxo tapetes e sei esperar minha vez. Isso mata na unha os apressados e indigestos por estarem sempre comendo cru, na tentativa de estar sempre "na frente".
Não tenho medo de escuro nem faço mandinga. Acho que sempre fui “protegida” por isso: por não dar ao outro um poder que ele não tem de fato. Não me recolho por causa de ameaças, nem por causa de inveja. Não aviso, não prometo, tenho meu próprio tempo. Não me encolho pra satisfazer a vaidade de quem não me engole, pois aprendi na vida, que o que existe de mais especial, forte e intenso, está comigo, vem de dentro pra fora: meu amor-próprio.

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