quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Enjoada.


Enjoada.

Obrigo-me a confessar que o enjôo anda rodeando por aqui. As temporadas aqui, ali, logo mais adiante não convencem a minha cética razão. É a notícia de um novo fracasso político. A cor do esmalte da moda que não é mais azul. A turbulência do noticiário de um novo desastre ecológico. Uma opinião descabida no Twitter. A onda no novo livro de Paulo Coelho. O filme que não emplacou. A programação adaptada para o verão na TV. Fico enjoada.
Não sou da turma porque não adquiri o novo celular que tira foto sexy, corrige os erros, fala com o namorado, manda recado, tira saudade, segue os passos, brilha no escuro, faz tatuagens, canta Jorge Vercilo e outras canções sentimentais.
Convenço-me que estou fora de época, com prazo de validade vencida e enjoada dessas temporadas modernas. Ando sóbria, chocada e enjoada.
Perdi a última foto do último Papa. Desisti de atualizar a porra do MSn que migrou para o Skype e me avisou de última hora. Também não consigo ser fiel ao ritmo acelerado quase pré-adolescente das canções que causam dancinhas coreografadas pela turma de garotas da esquina e enchem os bolsos dos cantores sertanejos mais modernos. Aniquilaram o velho e bom rock and roll que migrou para a dança sensual. Acabou-se o Blues. Fim da era filosófica, de letras poéticas falando das coisas do coração até nas músicas de ninar. E eu ainda não entrei nesse voo, mas já enjoei.
Acho sem lógica as discussões sobre os últimos acontecimentos do confinamento dos jovens, que me recuso a dizer qual, para eu não sofrer nenhum tipo de exclusão, pela minha voluntária desatualização. Fico enjoada, sim senhor. Enjoada do showroom, expondo o último modelito vermelho de carro, que para a alegria geral, o feioso que dirige, conquista a garota mais bonita do bairro. Embrulha-me o estomago essa modernidade racista e preconceituosa mostrada em fotos sangrentas, que pune apenas porque o sujeito decidiu contrariar o obvio e escolheu outra forma, e diga-se individual, amistosa e pacífica de viver.
Enjoei os códigos de comunicação mais atualizados, com riscos, rabiscos, sinais e expressões para dizer que estou ok e nada mais me interessa. Fico tentando dizer algo mais, querendo falar de sentimentos e por falta de sinais para isso, fico enjoada e deixo pra lá. Também não consegui concluir a leitura dos modernos tons por pura falta de comoção.
Ninguém deve estar interessado nisso, mas ainda guardo as cartinhas do primeiro namorado. O caderninho de apontamentos, com algumas folhas em branco, para uma emergência afetiva, ou no caso da falta de papel (dizem que economizar é ser bacana). Enjoei dos desperdícios. Enjoei das unhas coloridas em tons e enfeites dourados. Do último creme milagroso. Do cabelo cor de vinho tinto. Da chapinha, defrisante,longo e meio encaracolado, com e sem coquetel de frutas cítricas ou exóticas. Do salto plataforma, agulha, linha, baixo, deslizante ou emborrachado. Das noites de baladas intermináveis findadas em camas redondas com espelhos no teto, banho de ofurô e um bye bye sem número de telefone. Enjoei de ouvir falar do último rei da pista, da moda, da comunicação, do amor ou do futebol.
Contrario essas escolhas e continuo agarrada ao cd de Rita Lee, cantarolo as canções de Caetano, errando a letra, mas achando fenomenal. Choro com a poesia que foi cantada por Cartola. Ainda curto cinema com olhos marejados, perguntas que flutuam e mocinhos que são heróis. Envolvo-me na onda da solidariedade de Bono Vox. Gosto do clube da esquina, de ver a banda passar, da lua dos enamorados, das loucas verdades de Raul Seixas. Sou maluca beleza por uma casa no campo, sem trancas e um canteirinho cheio de ervas aromáticas.
Não enjoo das pedaladas de bicicleta. De ler Guimarães Rosa. Escutar nana Caymmi. Visitar um sebo e encontrar poemas de Pessoa. Cantarolar Mart’nália. Escrever cartões para alguém distante. Cozinhar a meu modo, sem nenhum tempero pronto ou receitas elaboradas com aqueles troços caríssimos comprados na Europa e que por sinal não tem gosto de nada comestível.
Não enjoei das roupas de algodão. De olhar o fim de tarde. De acordar cedo e tomar café, acompanhada. De ir à feira. Cultivar flores. Conservar amizades. Conversar sem pressa. Ouvir conselhos dos mais velhos. Adormecer com barulho de chuva. Não enjoei das folhas verdes. Do céu azul. Da noite estrelada. Das pipas no céu. Dos barquinhos de papel na água. Da fruta madura no pé.
Não enjoei do desejo melancólico de escutar as últimas notícias de que é possível ser feliz. 

Ita Portugal.

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