RELACIONAMENTO ABUSIVO.
Com tantos debates sobre feminismo, machismo e abuso, me veio à tona o quanto eu já sofri em um relacionamento extremamente abusivo.
Quando a gente fala nisso, a maioria já imagina que eu fui violentada sexualmente, mas a ideia de um relacionamento abusivo é muito mais abrangente.
O que aconteceu comigo foi o seguinte: eu me apaixonei por um rapaz que estava encarando o término de um namoro. Ele parecia estar sofrendo, ser alguém sensível e cativante. Desde que nos aproximamos, não nos largamos mais - exceto quando nos desentendemos e, logo em seguida, ele já apareceu com outra (me dando um enorme sinal de que ele não era a pessoa certa para mim, mas não fui capaz de enxergar isto na época).
Logo o relacionamento dele com esta outra pessoa acabou, segundo ele próprio por ter enxergado que, na verdade, ele gostava mesmo de mim.
Enfim, iniciamos um namoro que no começo parecia perfeito, com um companheiro educado, parceiro e romântico. Até que o tempo foi passando e ele foi se mostrando cada vez mais agressivo. Tudo, absolutamente tudo, o deixava insatisfeito - desde a comida que pedíamos até o que eu dizia, vestia ou fazia.
Lembro-me que era tão frequente vê-lo emburrado, me criticando ou reclamando, que eu chegava a estranhar os raríssimos elogios ou sinais de contentamento que apareciam. Basicamente, quando você se acostuma a apanhar, fica confusa ao receber um carinho... Mas carinho era algo raro em nosso dicionário, exceto pela parte que me toca: parecia que quanto mais ele mostrava suas frustrações, mais eu insistia em tentativas de agradá-lo. Não medi esforços - enfrentei o medo de dirigir porque ele não tinha carro ainda, tentei aprender a cozinhar porque ele "precisava" comer arroz e feijão em todas as refeições, me distancei dos meus amigos para que a minha atenção fosse toda dele, e por aí vai. Eu nem sequer parava para pensar e sentir se eu queria mesmo fazer tudo isso, eu simplesmente fazia porque sabia que era o que ele precisava e queria.
Foram muitas as humilhações que encarei, a mais séria foi a de levar um tapa - em um contexto que não aconteceu nenhuma briga ou desentendimento, ele simplesmente quis "brincar" de me dar um tapa.
Essa cena me marcou muito porque eu jurava que jamais um homem iria me agredir, e o pior, eu ainda cheguei a voltar com ele depois disso.
Resumindo: eu vivi por quase dois anos pelos caprichos de alguém, tentando salvar uma relação que já estava fadada ao fracasso desde o começo, por inúmeras e gritantes diferenças, mas, principalmente, pela falta de amor mútua por mim. Sim, hoje eu enxergo que ele nunca me amou e que, infelizmente, eu também não me amava naquela época. O medo da solidão era o que me motivava a ficar ao lado dele, aliado ao falso sentimento de admiração.
No fundo eu já sabia que um dia teríamos o nosso fim decretado, e eu jurava que jamais conseguiria lidar com ele.
Depois de algumas idas e voltas, finalmente decidi dar um basta. Lembro-me que isso aconteceu quando eu estava no cinema, assistindo ao filme da Alice No País das Maravilhas, na cena em que ela decide fazer a sua própria escolha, ainda que desagradasse a grande maioria. Ali eu entendi que estou neste mundo para buscar o melhor de tudo e o meu melhor. Ali eu entendi que ninguém deveria decidir como eu me sentiria, o que eu diria, o que eu faria.
Ali eu enxerguei que o amor estava muito além daquilo que eu estava vivendo, e que quando uma relação não é saudável, ela não merece existir ou permanecer.
Ali eu finalmente compreendi que qualquer pessoa deve chegar para somar, nunca para (me) diminuir.
Então eu juntei a minha coragem, o restinho de força que estava ali dentro e coloquei um fim naquela relação.
Não foi fácil, me rendeu alguns bons anos de terapia e diversas técnicas para me curar daquele apego, daquela dor. Fui cuidando da minha mente, do meu coração, de mim.
E agora que já se passaram alguns anos, percebo que esse relacionamento foi fundamental para me ensinar a selecionar melhor as pessoas que devem entrar em minha vida, para me fazer enxergar o verdadeiro significado do amor, para me mostrar que já sou completa e posso vencer qualquer obstáculo, mas, principalmente, para transbordar amor por mim mesma..

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