ALINHANDO OS PLANETAS....
Amar alguém é um evento tão singular que relaciono com certas peripécias do universo.
Sempre que escuto coisas do tipo: esse cometa só passará pela terra de novo no próximo século, eclipse assim foi vista pela última vez na década passada, esse tipo de lua só acontecerá novamente daqui a vinte anos, lembro-me do amor.
Experimente conversar com gente de setenta, oitenta anos, sobre a pororoca das almas.
Você não escutará uma lista infindável de relações, mas narrativas pontuais, marcantes.
Observe em seus semblantes a transformação e como foi experimentar acasos tão extraordinários (que não parecem acasos).
Da mesma forma ouvirá das desavenças e desenganos do que pensavam ser e não era.
Falam por aí que somos feitos de poeira das estrelas, e muitas vezes como essas nos comportamos.
Satélites orbitarão ao nosso redor. São aquelas pessoas que sempre nos amaram, quiseram uma mísera chance, mas nunca foram correspondidas. Como a lua almeja a terra, por anos e anos, sem nunca beijá-la.
Meteoros são paixões avassaladoras, surgem do nada e para o nada vão quando se chocam com nossa atmosfera, nosso jeito de ser, de pensar, de agir, confrontando-se com nossos ideais, espatifando-se nas convivências antagônicas da relação.
Buracos negros são relações que sugam nossa vitalidade, energia de viver, traumatizam nosso dia a dia, nos apequenam, destroem sonhos, instauram caos doméstico, para culminar na assinatura de papéis em um tribunal.
Explica-se assim, também, como que relações que estão por um fio, esfrangalhadas, possam se manter. Casais que comungam a mesma galáxia caótica, e que por hábito, mania, não conseguem se desvencilhar, vagam pelas ruas e avenidas, errantes à espera de uma energia maior, que possa resolver o que tanto lhes atormentam, cortar as amarras do tédio e das desavenças. São socorridos por amigos, procuram terapia, recorrem aos poetas, ao álcool e ao que for, mas nada parece acalentar o desespero. Rotas programadas ao sofrimento, avistando vizinhos longínquos, as vezes nem tanto, descarregando carros entre sorrisos e brincadeiras, cheiros e chamegos.
É necessário um big bang para romper o silêncio, a falta, a tristeza, o nada, e inundar novamente um coração com as fagulhas do céu.
Quando, porém, após longa espera, planetas se alinham, partilham horizontes, se atraem quase que com a força da gravidade, finalmente se enamoram, depois de tantos devaneios, desencontros, espera e procura, acontece o quasar do amor: surge uma estrela.
O amor é raro. Brilha mesmo longe. Brilha de funduras inexplicáveis.
José Klein
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