sábado, 21 de novembro de 2015

O GROSSO...


O GROSSO...

Nada como a sinceridade do sujeito grosso, é espontânea, contraria todos os bons costumes, a educação, e o corriqueiro. Vem para chocar.
Fazia tempo que eu não via um exemplar genuíno "faca na bota". Veio em minha direção e regurgitou:
- Tá gordo, hein?
Longe do pudor daquela sua tia do interior, que ao revê-lo diria:
- Anda se alimentando bem meu sobrinho, está fortinho!
Não, ele vai direto ao ponto, fala o que pensa, não tem rodeios.
Contundente e afiada, sua opinião estraçalha a paciência de quem está ao seu redor.
Caso a nova namorada do amigo comum seja desprovida de beleza, logo sentencia: mas que mocreia. Se ela é entediante, já a chama de mala, valise, bagageiro para baixo.
Você comenta que um conhecido está em uma instabilidade vocacional ou empregatícia, e o grosso já apresenta duas alternativas, ou esse cara está quebrado, ou é vagabundo mesmo.
Sujeitos assim possuem aquela ingenuidade da criança, que pensa não haver consequência de seus ditos, e que no final pode acabar sendo o comentário da semana, do ano, ou quem sabe de toda uma vida.
Em uma mesa de bar, o indivíduo grosso tem logo o veredito na ponta da língua, independente do ocorrido, cessa com qualquer possibilidade argumentativa dos demais. É promotor, advogado e juiz ao mesmo tempo. Ao largar o copo de cerveja, bate o martelo do tribunal.
- Isso é uma safadeza, roubalheira.
Sim, ele tem um papel social importante, em uma época de tanto se utilizar o famoso “Maria vai com as outras”. Pouco polido, pedala a porta do senso comum, não está aí para agradar, atrelado a interesses terceiros, nem é cínico, pois sua linha de conduta não permite tempo para o ponderado, o avaliado, o repensado, larga seus porcos com a rapidez e fluidez de uma pérola, doa a quem doer, acerte quem acertar.
Experimente acompanhá-lo em uma exposição. Corre-se o risco de ouvir uma crítica severa à Picasso.
- Que pintor é esse que não consegue acertar dois traços?
Pobre da devotada, que após uma batalha árdua travada por horas a fio em um salão de beleza, entre a tal da química e a chapinha, escutar que uma vaca lhe lambeu o cabelo.
Do sujeito grosso e sua respectiva honestidade de pocilga, é esperado qualquer coisa, e tem sua relevância em um cotidiano de opiniões tão repetitivas, mesmo que possa não parecer numa primeira vista.
Agora, coitada da mulher que tiver a coragem de casar com ele. É um homem para manter perto, como escudo dos chatos, jamais dentro de casa. Ele sempre notará que você cortou o cabelo, só evite deixar uma vassoura de palha por perto, sob o risco de sofrer comparações.

José Klein 

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