quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Fica-te por aí..

Fica-te por aí nas esquinas da tua incerteza à espera de um milagre qualquer que te devolva o coração reparado. Imaginei-te outro, mais inteiro, mais sereno, menos frágil. Fica-te por aí a conquistar o mundo com o teu olhar penetrante e a tua voz de actor apaixonado. Viro-me e estás por todo o lado e então decido que não és tu, apenas uma representação do teu ser e que o teu ser é um segredo pobre que não vale para revelar a ninguém.
*

Nem sequer posso chamar-te caçador de almas, conquistador exímio, profissional nas matérias do sexo e da paixão. A sedução é ambígua e joga-se como nas cartas. Mas tu não pretendes pertencer a nenhum naipe. Preferes a distância de quem está de fora, no camarote, a ver-se em cena. Como se fosses dois, porque és muitos, e por isso, no fim das contas, ninguém.
Estás fora do meu baralho. O teu sorriso cristalizou todos os meus sonhos, um a um, sem piedade. Já nem sei bem como te chamas e num dia qualquer que há-de chegar, numa manhã mais límpida, menos sufocante, vou acordar sem ti no sangue, longe, longe das esquinas de um tempo em que tudo parecia possível e tudo era mentira.
Pedro Paixão

Nenhum comentário:

Postar um comentário