Eu tenho os seus espelhos em casa. E o vidro é uma fotografia. Eu tenho as suas chuvas esparramadas pelo meu quarto, tenho o meu céu repleto de vazio, tenho a sua memória estraçalhada no meu mural como aquelas borboletas com cabeça de alfinete.
Não saia de casa esta noite. Tenho algum carnaval dançando em mim. Parem com a música, senhores, hoje é dia de cinzas. O resto é uma brincadeira de inventos.
Vamos fugir para dentro de qualquer um dos teus delírios e, por amor, vamos ser felizes. Vamos ser felizes por amor. Esconda as suas artes caras e vamos sujar as mãos com o sangue um do outro.
Esconda a droga do seu bom senso e voe até a sua morte sair pela boca.
Os meus alfinetes são temporários e a minha magia negra é inconsciente. O meu problema é falta do que fazer. E é o tempo que sai fugido de mim.
Horas, amores e decepções são os desastres naturais imprevisíveis.
Vou abusar da tua coragem e da mão de obra barata.
Vou abusar da tua falta de tecnologia, do teu atraso e da tua África. Vou povoar você. Vou salvar você.
E esse corpo desnutrido não são ossos, são ócios. Ócios da tortura de me pertencer, mas não reclame. Não reclame jamais, porque te amo, porque te guardo.
Não se lamente, por maior que seja a minha culpa. Não decore o meu interior com a tua mania de adeus. Eu não me despeço nem dos meus lixos.
Sua saliva é um véu que me sufoca, e minha existência se resume em ser um talibã radical. Eu existo e o mundo é meu. O mundo é meu.
Qualquer dia vou assar a tua alma e acabar com a fome mundial. Vou ganhar o prémio nobel da paz, agradecer e dizer que todo mundo comeu da minha dor, que todo mundo bebeu do teu sacrifício involuntário. E todos me vão aplaudir porque todos se engasgam com o próprio silêncio,
e o silêncio é de morte.

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