FUGA DO CORPO -
Uma necessidade de sentir seu próprio corpo - que se transformou em pequenos cortes - que marcam sua existência como sendo dela mesma e não do outro. São cortes para si. Ela os faz onde ninguém pode ver. Ela se corta em lugares que não a demandarão usar blusas de manga comprida em pleno verão, coisa que certamente chamaria tanto a atenção das pessoas quanto fazer cortes em lugares óbvios.
Uma necessidade de existir menos - que se transformou em umaurgência de comer nada - para que seu corpo se torne pequeno, bem pequeno. É uma tentativa de fazer com que a sua existência passe despercebida, mas não ao ponto de perder o limite e adoecer aos olhos dos outros, coisa que certamente desenvolveria nas outras pessoas um radical desejo de alimentá-la.
Uma necessidade de se reconhecer no espelho para além da imagem que ele lhe oferece - que se transformou numa impossibilidade de reconhecer a si mesma em uma imagem. Ao ponto de ela escrever palavras, muitas palavras, centenas ou milhares delas por todo o seu corpo e, nua, pôr-se diante do espelho, para finalmente poder se reconhecer pelas palavras que o seu corpo abriga.
Uma necessidade de inventar coisas que ela não é - de infectar seu desejo com os opostos que ela carrega, para que possa saber verdadeiramente (para muito além do cérebro) que a sua existência não carrega um sentido intrínseco à vida. Assim, seu lado de dentro faz laço com seu lado de fora – o que lhe causa um imenso amor por seus avessos.
Por Ana Suy.

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