quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Clara seguia religiosamente ._

Clara seguia religiosamente o mesmo caminho do trabalho para casa todos os dias. Todos, menos aquele. Uma chuva torrencial e uma obra emergencial a obrigaram a mudar a rota. Foi nesse dia estranho, mas comum, que ela viu pela primeira vez o labirinto. A estrutura a fascinou e a assustou na mesma medida. No dia seguinte, quase sem pensar, Clara seguiu pelo caminho alternativo até o labirinto mais uma vez. E daí em diante um novo ritual se estabeleceu. Todos os dias ela avançava junto às paredes externas, fazendo anotações em um bloquinho, tentando percorrer a cada vez uma porção de muro diferente a fim de desenhar um mapa que a permitisse entrar sem se arriscar. 
A cena se repetiu por semanas, até que chegou o tão esperado – e calculado – dia. O mapa estava pronto e Clara preparava-se para adentrar o labirinto. Sentia-se feliz por acreditar estar totalmente preparada, não havia para ela nenhuma possibilidade de que algo acontecesse diferente do previsto acontecesse. Ela encarou a entrada do labirinto mais uma vez e entrou, um pé após o outro, e o mapa bem firme nas mãos. O desenho indicava que virasse a esquerda após ver uma macieira, e assim ela fez. Mas o que viu naquele momento não estava desenhado no mapa. Um homem estava sentado, as costas apoiadas no tronco da árvore, lendo. Clara parou de súbito; não sabia o que fazer. O homem levantou os olhos do livro e pousou-os em Clara. Ela sentiu-se estranha, como se estivesse sendo vista pela primeira vez. O homem disse alguma coisa, e Clara achou muito esquisito que ele falasse cantando. Será que ela estava delirando? O homem repetiu a frase: “Meu nome é André, e o seu?” “Clara”, ela respondeu. O homem, André, pôs-se a falar novamente, mas Clara não conseguia acompanhar. Estava muito confusa com toda aquela cantoria, e aquele olhar que não a deixava respirar.
Depois de algum tempo percebeu que o homem não mais falava, mas o olhar dele a deixava ainda mais nervosa. Ele levantou-se e Clara se afastou. André abriu a boca e ela se concentrou com todas as forças para ouvir o que ele dizia. Entendeu que dizia que ela não precisava temê-lo. Mas seu coração dizia que precisava, sim. No entanto, também dizia que ela precisava dele, mesmo que tivesse medo. Clara não estava gostando nada de tanta contradição e não conseguia decidir se partia ou ficava. Foi quando pensou que precisaria esquecer um pouco o medo e tentar entender aquele homem, o que ele fazia ali, para decidir com mais embasamento o que fazer em relação a ele e à travessia do labirinto. Esse pensamento acalmou-a, como sempre acontecia quando ela acreditava ter conseguido organizar seus sentimentos.
Desde então Clara passou dias voltando ao labirinto sem nunca ultrapassar a árvore de André. Ela chegava, ele lia pra ela, conversavam sobre tudo e mais um pouco, e com o passar do tempo, quando percebeu a existência desse padrão, ela mais uma vez se sentiu segura, acreditando que a vida seguia um novo roteiro, um pouco diferente do previsto inicialmente, mas claramente organizado. Ela ainda não tinha entendido que padrões só acontecem enquanto não estamos vivendo, e que por mais que tentemos fugir, a vida sempre se impõe. Então, em um dia como outro qualquer, André, ao terminar a leitura de um poema, fechou o livro e levantou os olhos buscando Clara. Ela, como sempre fazia, sustentou o olhar, e sorriu. Ele segurou o braço dela, o que era normal. Em seguida, aproximou-se mais e puxou-lhe os cabelos em gestos suaves e repetidos – isso também era comum, apesar da incomum descarga elétrica que ela sentia percorrer seu corpo nesses momentos. Então André perguntou no seu tom de voz que é quase música, Você gosta de ser assim tão bonita? Clara enrubesceu e baixou o olhar, envergonhada. Mas André não se inibiu, levantou o queixo dela com os dedos da mão esquerda e a beijou. 
Foi aí que tudo acabou e começou, no mesmo instante. Todas as certezas, planos, previsões e estudos de Clara estavam condenados. Ela sabia que nada mais daquilo importava. Ela queria surpresas. Queria desejar sem saber o porquê, sem nem saber o que queria até que fosse tarde demais e ela já o tivesse. Ela não queria mais encontrar a saída, alcançá-la em uma única e curta travessia sem desvios ou obstáculos. Ela queria errar fenomenalmente, desde que isso significasse estar com aquele homem. Ergueu as mãos e deixou o vento levar o mapa. Desistira do caminho mais curto. Queria continuar perdida enquanto pudesse.

Carina Destempero.

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