Não vim até aqui pra desistir agora, ela sussurrava enquanto olhava o precipício e lembrava de Kundera e da Vertigem, da vontade de cair, de ânsia incontrolável de destruir tudo e impossibilitar qualquer chance de voltar atrás.
Apenas respira, ela murmurava enquanto se afastava do vazio e lembrava do tanto que fizera pra chegar até aquele momento, das roupas velhas que deixara pelo caminho, das certezas que antes a prendiam e que, pouco a pouco, foram ficando pelo chão, dos ideais que a seguravam e que ela enfim aprendera a transformar em trampolim.
Entendo se você quiser ir embora, mas eu não vou desistir agora, e a voz já mais forte, os pés fincados no chão e as unhas esmaltadas de preto contrastando com a pele clara, olhando para cada fibra de roupa nova, cada célula da pele bronzeada, cada fio de cabelo longo como se fossem uma conquista de território no War, o exército já dominando quase todo o mapa.
Eu não sei aonde vou chegar, só sei que ainda não é o fim, e o tom tranquilo e confiante de quem sabe que o caminho é longo, de quem entende que o último tropeço foi necessário para que o próximo passo seja mais firme, de quem escuta aquela voz quase inaudível do abismo a chamando e responde sem hesitar, citando Guimarães Rosa,
É preciso sofrer depois de ter sofrido, e amar, e mais amar, depois de ter amado."
Carina Destempero

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