Redes sociais e o estereótipo do brasileiro
O Facebook e as outras redes sociais estão sendo ótimos pra esse país. Elas estão dando voz aos energumenos, aos incultos e aos preconceituosos. Alguém poderia dizer que isso é péssimo. Mas eu penso que não. E assim penso porque agora sabemos quem são e como pensam aqueles que cometem pequenas e grandes barbáries. Basta estarmos atentos. Você não precisa ser membro de uma elite cultural, hoje, para ter suas idéias publicadas ou vistas pelo mundo. Eu mesmo vos falo sem ter amplo conhecimento em nada, por exemplo.
Creio que, finalmente, podemos acabar com o estereótipo de que o brasileiro é cordial, não tem preconceito, que é acolhedor, receptivo e festeiro.
Definitivamente: esse não é nosso povo!
Ao meu ver, sequer temos a dimensão do que é ser um povo. Aqui é cada um por si. Cada um empreende tentativas diárias de subjugar àqueles que julgam menores. Seja por ser mulher, homossexual, negro, louco, criminoso… Aqui tentamos nos mostrar melhores que outrem o tempo todo. E assim o fazemos, para que possamos ter algum privilégio ou para que possamos justificar os que temos.
Somos um povo violento. Não “levamos desaforo para casa”. Achamos bonito o caráter saqueador e belicista de nosso passado. Dúvidas? Vejam as odes aos bandeirantes e ao cangaço. Duvidam que no futuro as facções serão consideradas núcleos de resistência ao sistema opressor, mesmo hoje a gente sabendo como são e funcionam?!?
“Somos um povo acolhedor e cordial com estrangeiros”. Somos. Se o estrangeiro tiver olhos azuis, rosto de empresário bem sucedido e carteira recheada. Nesse caso somos em geral quase que prostitutas subservientes, damos até nossa cama para dormirem. Seja você um imigrante com traços indígenas ou negro para ver o quanto acolhedor o Brasil é. Exagero? Pergunte aos MÉDICOS, SIM EU DISSE MÉDICOS, cubanos. Pergunte aos bolivianos que vêem no Brasil uma oportunidade de melhorar de vida, aos imigrantes africanos em geral, e agora aos haitianos. Todos sofrendo pequenas e grandes humilhações todos os dias.
Mas não temos qualidades? Sim, somos criativos. Nossa “malandragem”, ou jeitinho brasileiro, se bem canalizada, pode se tornar um meio alternativo de observar problemas e dificuldades e enxergar soluções. Temos qualidades? Sim, temos. Somos um povo miscigenado.
Se educarmos nossa ‘elite’ um pouquinho que seja, para que ela perceba que relativamente ao mundo, ela não é uma elite nem cultural nem econômica, e que seu papel não é o de sufocar e espezinhar o restante da população, mas sim o de promover melhorias para o país, certamente podemos ser melhores. Todos.
Notem que eu falei sumariamente na reeducação da elite, não do povo como você e eu. Por quê? Por que são eles que controlam as mídias, a política, empresas e todas as formas de poder. Se os melhorarmos, melhoramos todo o restante por consequência.
Vejo que com o desnudamento de nossos preconceitos, vilanias e crueldades temos uma chance de ouro de mudar nosso país e a nós mesmos. Penso que agora é hora de olhar essa massa disforme que somos, e tentar polí-la um pouco para, quiçá, um dia, ela ter algum brilho. Ao meu ver, isso só se dará através de um grande pacto pela educação. E não falo de bancos escolares apenas. Falo de núcleos de cultura e debates entre adultos, jovens e crianças em cada município, em cada bairro. Lugares onde as pessoas falem, dancem, cantem, escrevam, pintem. Precisamos de uma vanguarda cultural. Precisamos colocar a cultura no centro de nossas preocupações. Precisamos tirar nosso país dessa horrorosa onda de escolas e faculdades técnicas, como solução para o futuro. Elas são meio e não objetivo. São necessárias, mas não devem ser nossa principal fonte de conhecimento. Não precisamos apenas saber fazer coisas, mas antes, pensar quais as melhores coisas a serem feitas para que vivamos melhor. É claro, que não adianta termos conhecimento técnico para produzir coisas, se não somos capazes de eleger quais coisas devem ou merecem ser feitas? Se não tivermos essa capacidade, nos perpetuaremos como curral do mundo, sendo burros de carga que produzem o que o mundo que pensa, imagina. Não podemos educar nossas crianças e jovens apenas por um viés tecnicista. É ridículo sonhar o Brasil como um mar de operários. Embora tarefa honrosa, acho que 200 milhões de pessoas possam contribuir melhor com o mundo do que apenas sendo mão de obra para os capitalistas do mundo dito desenvolvido, certo? Podemos começar ensinando a executar tarefas, mas precisamos estimular conjuntamente a esse aprendizado técnico as potencialidades espirituais de cada um. Sua capacidade de sentir, pensar, perceber a si e ao outro. Devemos produzir e reverenciar cultura. É isso que nós falta. Fazer com que todos nós ricos e pobres, queiramos ser realmente melhores. Que estejamos todos conscientemente preocupados com o futuro de nossos filhos e netos, pensando e construindo um lugar melhor pra eles.
Penso que quando a criança tiver a oportunidade de se lambuzar de tinta e não de sangue nas periferias de nosso país, e que quando nossos bilionários não se ressentirem de alienar parte de suas fortunas em favor dos pobres e miseráveis, e perceberem que investindo no povo, estarão investindo em si mesmos, estaremos nos tornando um povo. Até lá, veremos mais gays sendo agredidos por valentões, mais negros sendo ultrajados por serem negros, mais refugiados sendo humilhados, mais estrangeiros agredidos, mais mulheres sendo subjugadas a homens torpes, mais crianças de periferia recebendo nãos sistemáticos e conjunturais. Por que esse é o Brasil. Esse é o país que estamos fazendo e perpetuando.

Nenhum comentário:
Postar um comentário