sábado, 21 de novembro de 2015

CUIDADOS JAMAIS CONFESSADOS.


CUIDADOS JAMAIS CONFESSADOS.

Um casal apaixonado se comunica não apenas por palavras, mas por pequenos gestos. Alguns são aparentes, outros, porém, são segredos muitas vezes de posse de apenas uma das partes.
Você acorda, abre a geladeira, e lá está o seu iogurte predileto. Noite passada, no supermercado, ela se lembrou de sua tara por ameixa. Em contrapartida, volta pra casa trazendo aquela revista de moda de dois tomos. 
Bilhetes na geladeira avisando da consulta ou no travesseiro desejando um bom dia, uma marca de batom no caderno, uma oração dentro do seu notebook, mais do que cuidados e romantismo, revelam a preocupação constante com o que o outro deseja. 
É certo que no começo não conhecemos tanto os gostos. A janta poderá ter vinho quando deveria ter cerveja. As rosas surpreenderão quando as gérberas fascinariam.
A intenção é o que vale. Fracassos são tentativas ajustadas com o tempo.
Esqueça as grandes datas e os grandes presentes, estou falando aqui daquilo que faz vocês dois serem únicos. Algo que para outros faria pouco ou quase nenhum sentido.
O que um casal quer é identidade, anonimato serve para a solteirice.
Quando amamos adicionamos constantemente notas em uma sinfonia que é peculiar somente a nós. Não queremos que falte nada para quem nos acompanha, estamos sempre compondo.
Existem coisas que vão além do zelo mútuo. Movimentos sutis e fantasmas que somente acontecem na consciência. Uma escolha que nunca será exposta, nunca será explicada, nunca conhecerá a luz do sol ou emergirá em confissão. 
Tenho um copo egípcio, tipo cálice de Santo Graal. Um copo longo e decorado com desenhos de divindades. Eu me sinto o ultimo faraó em seu círculo de cristal. 
Só que uma pequena barata inventou de confundi-lo com o Nilo e nadou no resto de suco dentro dele.
Lavei, fiz de conta que nada aconteceu e não deixei de esnobar e servir minhas visitas com minha relíquia. Aproveitei que ninguém viu, ninguém sabia das andanças do inseto.
Entretanto, fracassei com ela, a guria que começava a sair. 
Estava ele lá, parado em cima da pia, reluzindo, quando a futura namorada entra e solicita uma bebida gelada. 
Pego a água, miro o que fora outrora a piscina da barata e vacilei pela primeira vez, apesar de que a aparência não poderia me condenar. 
Enquanto limpo outro, ela se aproxima e pergunta:
- Por que você não serve nesse ali? É só para pessoas especiais?
Abro a lixeira e lanço na vala dos materiais recicláveis.
- Enjoei dele! 
Vão-se os cristais, fica o amor.

José Klein 
 Юлия Бородина

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