PONTO FINAL...
Confesso que tentei, fiz o possível e o impossível, o suportável, o insuportável, o inimaginável, mas não deu.
Falei do futuro, de tudo que nos aguardaria, logo ali na frente, bastava engatar o braço.
Falei do passado, recontei a nossa história, legendei as fotos.
Falei do presente, e de quão duro é ficar afastado, pois a simples distração dos meus olhos enquanto falo com ela já me gera saudade.
Disse para ela que quem vai embora leva consigo todas as incertezas, fraquezas, e riscos, pois quem fica, mesmo que derrotado, levanta o troféu da tentativa: estou aqui.
Assumi meus erros, sua certeza não foi em vão.
Muitas e muitas vezes a magoei, ora grosso, ora displicente, ora insensível, ora contundente, mas o que é o amor se não o próprio perdão indo e voltando.
Não adiantou, uma cegueira se abateu, uniu-se com a intolerância e ela partiu.
Não segurou minha mão e eu tive que dá-la ao silêncio quando entrei em casa. O silêncio é a pior companhia, só agrava as badaladas da respiração.
Antes, escutava barulhos de salto pelo assoalho, cheiro de comida, perfume, risadas, contos, sonhos, amarguras, alegrias, tristezas, ouvia a tal da vida.
Agora já não mais, eu e o que restou de você.
Sentei-me no sofá e comecei o longo diálogo entre eu e eu, esses que a gente só tem quando a alma exige respostas, descontente com que está sentindo.
Quando estamos felizes, somos dos outros, ora parque de diversão, ora contador de piadas, quer seja para o porteiro do prédio, taxista, vizinho, cliente de trabalho, ou para quem for.
Quando estamos tristes somos de nós mesmos, retornamos ao fundo da solidão. Mesmo que a gente não queira, a consulta já está marcada, de nada adianta fugir ou se esquivar.
Botei uma música, peguei um copo, derramei a bebida, e fui perambular pelos cômodos.
Os espólios de guerra de uma relação que termina são dolorosos. Um resto de sabonete pode denunciar aquele banho a dois que nunca mais será o mesmo, os lençóis amassados no canto da cama testemunham a entrega dos corpos, o batom no cálice foi o seu beijo de adeus.
Quantas e quantas vezes eu nasci naquela boca e morri naquele corpo? Nosso quarto guarda segredo.
Os armários do quarto, com seu perfume remanescente, porém agora vazios, tornaram-se caixões postos em pé, e eu, o coveiro com a dura missão de enterrá-los.
Tinha que abandonar a morada de qualquer jeito, percebi que estava em um cemitério buscando vestígios de vida entre mortos.
Fechei a porta com cuidado, não queria incomodar os fantasmas do nosso ninho.
A chuva começou a cair lentamente. Deus, solidário à minha dor, veio chorar comigo.
Toda lágrima é um ponto final. Melhor seria arrancar os olhos.
José Klein

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