sábado, 24 de outubro de 2015

O rosto enganador procura ocultar o que o coração falso sabe.”

A cultura do estupro – ou seja, a cultura que convence a todos que estuprar, passar a mão na balada ou encoxar no ônibus não é tão mal assim – é alimentada justamente por esse falso senso de humor:
— Vamos brincar de estupro?
— Não quero!
— É assim que começa.
Acredite se quiser, a piadinha infame acima foi ouvida por uma de nossas repórteres não há um século ou há uma década, mas há dois dias. Naturalmente, ela não viu graça nenhuma e deu uma bela bronca no “engraçadão”.  
Ontem, ela lembrou do episódio ao discutirmos o caso Valentina, a menina de 12 anos doMasterchef Jr que tem ouvido todo tipo de barbaridade sexual nas redes sociais – pior, vinda de homens adultos. O cara que contou a “piadinha” acima pode se achar moralmente superior aos que sugeriram estuprar uma garotinha nas redes sociais. Mas não é.
Não é à toa que homens que ameaçam e agridem mulheres na internet, quando pegos pela polícia, sempre usam a desculpa do “era apenas uma piada”. Foi isso que aconteceu com os homens que ameaçaram a Nana, nossa diretora de redação, no ano passado. Depois dela iniciar a campanha virtual “Eu não mereço ser estuprada”, recebeu cerca de 500 mensagens ofensivas que, entre outras coisas, a ameaçavam de estupro. A “brincadeira” de alguns custou a ela noites de sono, seu marido teve que cancelar uma viagem profissional, ela parou de trabalhar por um período e teve até que tomar calmantes.
No Brasil, acontece mais de um estupro a cada 10 minutos. Quer dizer, na verdade são mais. É que esse número estarrecedor só dá conta dos estupros reportados. Segundo dados oficiais do Sistema Nacional de Estatísticas em Segurança Pública (Sinesp), foram registradas 50 mil ocorrências do crime em 2014. As tantas mulheres que por medo, culpa, vergonha ou pelo motivo que for, não denunciaram a violência sexual de que foram vítimas não estão incluídas nesse número.
Dentre todas esss vítimas, estima o IPEA, que 50,7% são crianças, ou seja, menores de 13 anos, como Valentina. O crime de sexualizar meninas antes mesmo da puberdade é muito mais comum do que se imagina, perspassa classes sociais e raças. Só na nossa pequena redação, por exemplo, temos mais de um caso de mulheres que foram sexualmente agredidas antes dos 12 anos, por gente da família. Recurperar-se de um acontecimento assim e das marcas sexuais e psicológicas deixadas por ele, elas garantem, não tem nada a ver com humor.
A Letícia, nossa captadora que é também psicóloga, pode presenciar os estragos que casos como esse fazem numa menina – e mais tarde, em uma mulher – de perto em seu consultório. Uma delas já tinha 36 anos quando sentou-se ali com um segredo que escondera do mundo por 30. Quando a mulher contou sobre o abuso sofrido, tão remoto e tão presente, a Letícia pode ver o peso em sua coluna encurvada se desfazer à luz da revelação. Seus olhos ariscos pareciam duvidar quando a Letícia disse que a culpa não era dela. Mas, mesmo incrédula, ela ficou. Assim começaram os meses que passaram juntas, através dos quais a paciente foi construindo uma nova versão da sua história. A vida toda ela fora culpada, e ali começava, finalmente, a ser vítima.
“Mas vem cá, Por que as feministas falam como se só mulheres fossem estupradas?” 

Todo estupro é uma tragédia. Ao contrário do que insinuou o deputado Jair Bolsonaro, ninguém merece ser estuprado. E aqui fazemos questão de lembrar a comovente história de Heberson Oliveira. Ele hoje está entre os milhões de brasileiros portadores do HIV. O vírus é a cicatriz invisível e latejante dos estupros que Heberson sofreu na prisão, onde passou dois anos acusado de um crime que não cometeu. Todo nosso sentimento por esse e pelos milhares de Hebersons esquecidos em algum canto de Brasil.
Mas falamos principalmente sobre mulheres porque é às custas dos nossos corpos que os números do estupro no Brasil são tão alarmantes. Somos nós que sabemos o que é viver com medo de ser a próxima. E somos nós que sabemos que, por isso, piadas de estupro não tem graça nenhuma.
 
O rosto enganador procura ocultar o que o coração falso sabe.”

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