terça-feira, 20 de outubro de 2015

DE MÃOS DADAS

Mãos dadas
Era fácil perceber que alguma coisa havia mudado nele. O sorriso permanente no rosto fazia lembrar uma expressão antiga: ele parecia ter visto o passarinho verde. Andava mais leve, sem fixar o olhar para o chão. Gostava mais dos dias de sol, mas não desprezava os nublados ou os de chuva, e principalmente sorria como não fazia havia muito tempo.
Quem o conhecia recentemente estranhou menos, mas os amigos mais antigos, aqueles que o viram atravessar sozinho caminhos difíceis, ficaram assustados mas contentes. Afinal, não importava o que estivesse acontecendo. Os sinais de felicidade eram nítidos.
Como o histórico de alguma melancolia era sabido por todos, ninguém se atrevia a perguntar o que havia mudado. Ele apenas sorria e aquilo chegava a ser contagiante. Talvez até parecesse bobo, mas ele pouco se importava. Havia se desfeito de um peso que nem conseguia dizer se era seu ou não.
O tempo passava mais rápido, as coisas continuavam iguais, os problemas não desapareciam, mas ficavam do tamanho devido e a solução deles, bem, essa seria alcançada. O mais importante era que não havia fantasia, só uma felicidade que ele não conhecia.
Ele pensava nas mudanças ocorridas. Sabia que não era apenas a presença dela desde o último sábado. Afinal, cinco dias era muito pouco para transformar as coisas dentro dele do preto para o branco.
Ele estava pronto para essa virada havia algum tempo, mas faltava alguém para acender a luz. Torcera para que fosse ela, mas nunca conseguiu chamar sua atenção o suficiente, apesar dela estar sempre ali por perto.
Ria das coincidências e lembrava que ela sempre dizia que elas não existiam. Lembrava-se de várias conversas, tardes e noites de conversas como “amigo”, e dos quase beijos de despedida em frente a casa dela, o quebra-cabeças montado o levou a se apaixonar por aquela moça.♥♥♥
Naquela noite, mais uma entre as várias que ficaram conversando até tarde não havia nada de especial, até que na hora de ir embora aquele sorriso de sempre o atraiu definitivamente e o fez arriscar um movimento sem volta, o beijo que poderia começar algo ou criar um mal-entendido e terminar a amizade.
Como se fosse algo esperado, o beijo foi calmo, importante e levou os dois para longe de onde estavam. As bocas se separaram, os olhares se cruzaram rapidamente e novo encontro dos lábios. Seriam amigos para sempre, mas tinham descoberto que se gostavam como homem e mulher.
Ele foi embora sem saber como seria o dia seguinte, como começaria a falar quando a encontrasse, sem querer ter interrompido aqueles beijos. Tinha esquecido a sensação de como era o primeiro beijo, procurava entender como tinha decidido tentar beijá-la, e percebeu que o sorriso transbordava do rosto e espalhava-se por todo seu corpo.
O caminho curto até a sua casa foi rápido e gostoso. Ele não sabia o que mais ia querer quando a encontrasse de novo.
Quando deitou na cama, ficou certo de que não dormiria. Então, teve a imagem clara do que mais queria: andar de mãos dadas. Simples assim…

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