terça-feira, 20 de outubro de 2015

O LABIRINTO DA SAUDADE

Saudade. O dicionário define como “sentimento evocatório, provocado pela lembrança de algo bom vivido ou pela ausência de pessoas queridas ou de coisas estimadas”. Certa vez, um cientista me explicou de outra forma. Segundo ele, nosso cérebro constrói a realidade, nosso mundo, a partir de referências. Algumas delas são tão sutis, que às vezes nem nos damos conta, como o cheiro de café e pão quente pela manhã. Outras mais óbvias como tudo e todos que amamos. Quando retiradas tais referências, o cérebro acuado se desorienta, procura incessantemente o que falta e que não é possível reencontrar no tempo, na distância ou nos dois. É a dor de estar longe de casa, de perder um país. É a dor de estar longe dos entes amados. Segundo o cientista, essa dor também é fruto de um esforço tremendo que fazemos para reconstruir nosso mundo com outras coordenadas.
Poetas se excedem para falar do sentimento. Chico Buarque de Hollanda, por exemplo, escreveu que “a saudade dói latejada, é assim como uma fisgada do membro que já perdi”. Dizem que todo um gênero musical brotou dela: o fado português teria sido criado por viajantes nostálgicos. Acredito que uma das representações mais poderosas na saudade se encontra no chamado Jardim do Exílio, no Museu de História Judaica em Berlim. Num quadrado estão dispostos com intervalos regulares pilares de pedra. Tudo aparentemente simétrico e organizado. Porém o solo é irregular. Há desníveis inesperados. É como andar num navio: cada passo precisa ser cuidadosamente calculado. O olhar engana. O chão escapa. Não existe segurança.♣♥

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