sábado, 12 de dezembro de 2015

RETÓRICA CAFAJESTE



RETÓRICA CAFAJESTE
Quando não amamos, queremos ter controle do amor do outro.
É um sadismo inconsciente, mas acontece.
Você pergunta tudo o que não sente para ver se a outra pessoa sente, e exercer assim uma maior influência.
O resultado traz uma satisfação de poder.
O homem, quando não está apaixonado e principalmente no início da relação, costuma usar uma retórica cafajeste. Ele projeta, em tom interrogativo, o contrário de suas certezas pessoais.
Perguntará para a mulher: Está com saudade?
Perguntará justamente porque não sente saudade, mas tem o desejo de ouvir pela vaidade de subjugar alguém.
Ou fará advertências bem humoradas: "não consegue ficar longe, né?" ou "cuidado, não vá se apaixonar por mim!".
A provocação é desapego, por mais que transmita a falsa ideia de comprometimento. A possessividade – impor restrições e limitar a liberdade – fica próxima da tortura, já que ter é não mais precisar, ter é assegurar a supremacia, ter é apenas desfrutar de uma confortável disponibilidade.
Quando o homem questiona e não assume o próprio sentimento é que ele se encontra longe de qualquer vínculo. Quando o homem não fala dele e repassa a responsabilidade é que não foi flechado pela paixão.
O interrogatório sobre a dependência disfarça a ausência de interesse.
Numa posição desprovida de sofrimento, pretende fazer sofrer e prender a sua companhia.
É um sinal do autoritarismo da sedução, absolutamente unilateral, de clara dominação psicológica, e não resultado do enamoramento recíproco, em que os dois mergulham em igualdade de condições (inseguros como são os apaixonados, com medo das consequências e da intensidade das experiências).
A impostura de uma das partes – pois repare no quanto é artificial o questionamento - integra um jogo onde confessar a ligação é perder, onde confessar a dependência é abrir a guarda, onde confessar é não mais recuar nas palavras ditas.
O que ele ambiciona é que ela assuma precocemente o amor para pôr um fim à conquista.
Ao declarar que não há como viver longe, oferece o troféu que ele espera: tem uma nova prisioneira emocional para visitar à vontade na cela dos costumes e atender aos seus caprichos.
Cumpriu o que almejava com o mínimo esforço, despreocupa-se imediatamente em cortejar, pode relaxar e partir para outra caça.
Fabrício Carpinejar

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