Azul
Escrevo o texto em um papel. De manhã, de manhã, mas agora não. Estou sentada na escada da minha escola com o meu uniforme azul. As meninas passam fazendo uma boca de mulher, que eu tento em vão imitar no meu inconsciente, mas não, eu sou menina. Eu uso uniforme com cheiro de amaciante e coloco uma pulseira rosa que é para concordarem comigo, só menina, não a menina que esconde a cabeça nas pernas e lá parece mais confortável que o mundo, não, só a menina simples de rabo de cavalo. E se eu falar que tenho uma doença? E se eu falar que nasci na hora errada ou no dia errado, e a minha família me pegou no colo com dó? Não. Ninguém vai acreditar, pessoas com roupa passada e tênis branquinho são verdadeiras demais. Por que eu não me sujo? Por que eu tenho medo de educação física e de passar batom? Por que eu falo sozinha e com as pessoas que não me escutam? Por que eu escrevo como se fosse acabar o mundo? Eu acho que eles me olham cheios de perguntas. E eu também.
De manhã, de manhã. O professor de geografia me dá um tapinha nas costas. A moça da cantina diz um sim com a cabeça. O menino da escada limpa o nariz em minha homenagem. Todos querem saber por que diabos eu me calo tanto? E eu pensei que a escola tinha parado para me ouvir. Eu pensei que as meninas patricinhas tinham olhado para o outro lado do espelho.
Mas eu só levantei e limpei a calça azul, fiz uma colchinha com as mãos e bebi a água do bebedouro. Depois entrei no banheiro sujo cobrindo a privada com papel, escrevi com lápis de cor na porta do banheiro: droga, será que agora eu faço sentido aqui? E no outro dia já tinham rabiscado meu vandalismo radical: não vem dar uma de louca.
Eu não fazia nada direito. Talvez eu fosse a louca precoce e azul.
![]() |

Nenhum comentário:
Postar um comentário