terça-feira, 11 de outubro de 2016

AQUI ESTÁ A GRANDE VENCEDORA DO 31º CAMPEONATO NACIONAL DE ESCRITA CRIATIVA:

E AQUI ESTÁ UM DOS TEXTOS PRODUZIDOS PELA AUTORA AO LONGO DA PROVA:
“Orgulho, vaidade, despeito, rancor, tudo passa, se verdadeiramente o homem tem dentro de si um autêntico sonho de amor”.
A mulher amachucou o papel entre os dedos frágeis e manchados pela idade e suspirou. Levara uma vida para se desembaraçar daquela carta e daquela maldita sensação de que estragara tudo. Tudo. Uma vida. Longa, pesada, mascarada. Uma vida que atravessou a nado, em círculos. Podia ter sido tudo tão diferente. Podia ter sido noutro-lugar-qualquer. Bastava que não os tivesse visto de cabeças juntas. Bastava que não tivesse ouvido a gargalhada, que ainda lhe ensombrava os sonhos. Podia ter sido tudo tão diferente. Bastava ter ouvido a explicação. Não quisera ouvir nada. Desmanchou o noivado, mudou de cidade, de nome, dormiu numa cama de lençóis de orgulho, vaidade, despeito, rancor. Não ouviu ninguém. E sofreu. Sofreu. Calada. A remoer o orgulho, a vaidade, o despeito, o rancor. Casara. A vida não lhe dera filhos. E o amor perdera-se naquela gargalhada lá-longe. E ela fora infeliz. E esquecera-o. Mas, onde se esquecera dele, ele tornara-se pensamento. E ela vivera nesse lugar, entre o lá-longe, quase-às-vezes e o não-aqui. O orgulho, a vaidade, o despeito, o rancor como únicos companheiros de viagem. Hóspede de sonhos que não viveu, as suas raízes noutro-lugar-qualquer, vivera entre horas fracturadas, à procura das estrelas que já não habitavam o seu olhar e de um pássaro tardio que lhe dissesse que o lá-longe ia mudar-se para o aqui-e-agora. Não era verdade. Sabia-o agora. Soubera-o sempre. O orgulho, a vaidade, o despeito, o rancor levaram-na a um lugar de não-regresso. Um lugar de silêncios, um lugar que é um lugar nenhum, onde os sonhos de amor não cabem. Acariciou o gato, com gestos lentos, encolheu os ombros e agasalhou-se no orgulho, na vaidade, no despeito, no rancor. Há lugares de onde nunca se regressa.
Escritora Isabel Loureiro, 56 anos,

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