Sinto a brisa leve bater no meu rosto ao lembrar de um oceano em minha vida. O seu toque agora é o sopro invisível do céu e quase não consigo mais imaginá-la na forma real, humana, coberta de pele. Eu vi você se esvair para um lugar distante do horizonte, lento e paciente. Você sempre foi assim, tranquilo sobre tudo, a calma em pessoa, e eu sempre fui assim, observador e paciente com a sua paciência. Nós nos dávamos bem, quase sempre sem precisar dar um respiro profundo em alguma discussão. Você me deixou assim, fez minha respiração aquietar-se e pôs a mão no meu peito. Molhou meus pés e enxugou minha alma, e ainda animou-se a colocar meu corpo no varal em pleno vendaval. Eu nem pedi por isso. Eu nem sequer lembro o que eu pedi, mas com certeza não foi algo assim. Eu não conseguiria imaginar algo tão bom. Eu não sei quando, mas eu cheguei em casa, coloquei as duas sacolas da compra na mesa e sentei no banco. Tem um espelho no corredor, foi para ele que olhei no caminho à cozinha. Eu estava sentado por isso. Me vi de cabelos molhados, roupa ensopada, e não havia chovido. Uma onda forte ou não, não percebi. A água alcançar meus pés, joelhos, o mar subir cada vez mais e eu me sentia coberto de felicidade. Eu não sentia falta de ar, pelo contrário, eu ganhava mais. Eu tinha fôlego, talvez a primeira vez, para viver. Você levou de mim aqueles porta-retratos sem rostos pregados na minha cabeça, aquela dor que pressionava sem parar, o sofá atrás da minha testa que eu sentava com alguém cujo rosto você levou e ainda conseguiu lavar aquela poeira dos meus olhos. Você levou um pouco de tristeza, e deixou um pouco. E a água se esvaiu com uma calma de forma tão bela que quase não doía, ficando abaixo da minha cintura e o frio começando a substituir aquele espaço antes preenchido por completo por você. Não liga se você ainda ver um pouco d'água sair dos meus olhos, é apenas o resto do mar que você deixou. Está tudo bem, é normal."
{Danilo Cezar}
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