Não conto o tempo,
Pois não sei quanto vou viver, se já cheguei a ser, se falta, se ultrapassei, se foi já muito, ou se ainda é pouco. Conto o hoje, e amanhã, o hoje mais um dia. Conto que o copo da minha vida mantém.se meio, que fui aprendendo a olhar para ele e a vê.lo não meio vazio, mas meio cheio. Conto que a vida começa provavelmente aos quarenta, talvez porque a alma (as)senta, e pela primeira vez pergunta ao coração o que falta. Não conto o tempo para gente mal.me.quer, de intenção qualquer, que nada acrescenta. Não conto o tempo para quem tenta agradar, por agradar, nem quem sorri, por sorrir. Conto que é escassa, a cada dia que passa, a minha atenção para essa gente. Conto que o meu tempo, deixa.me sem tempo, para os assuntos fúteis, porque cada areia do relógio, é importante para os poucos amigos que existem. Conto (re)organizar o que possa ter concerto na minha vida, rescrevida, (re)inventada, tentada, encerrando gavetas, e abrindo janelas, a cada porta que estiver fechada. Conto que isso já me ocupa o quanto baste, e mesmo que a escolha (des)gaste, vale pelo copo meio cheio. Conto que tem que se (per)correr, para se (pre)encher, para se (re)viver. Conto que se é sentido, por mais impossível e irreflectido, vale a pena ser vivido. Conto que existe um filtro dos afectos, que vai depurando os rótulos, aspectos, e clarificando os conteúdos e essências. Não conto a multidão, conto os dedos da mão. Conto gente humana enraízada, de ferida cicatrizada e outras por abrir. Conto gente de alma, que acalma, mas que também esperneia, chora e ri. Conto batidas de coração, ecos de gratidão, que se repercutem por aí.
Não conto o tempo, conto o vento, os abraços de onde alguns laços, me contam a mim.
Não conto o tempo, contos os passos, o perfume, a dança,
- E conto.te a ti.
__ Luís Santos __
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