Tenho-me lembrado, com frequência, das tardes em que eu não tinha aulas e ia para o teu local de trabalho, fazer os trabalhos de casa. Tantos anos corridos, aqueles momentos permaneceram na minha memória como muito mais do que umas sessões de estudo; uma espécie de laboratório de criatividade que fez crescer em mim o bichinho da escrita. Nessas tardes de imaginação, escrevemos, as duas, aquela peça de teatro que depois foi encenada na minha escola –
Os meus sonhos e devaneios de adolescente eram, por vezes, refreados pelos teus conselhos – típicos de mãe: – “Estuda para não teres de lavar passar cozinhar como eu… nem depender de ninguém. Estuda, minha filha, porque se estudares podes tornar-te uma mulher independente…” – como tu adoravas essa expressão e fazias questão de remarcar a palavra in-de-pen-den-te (do homem, claro!) – «Quem estuda pode ter uma vida melhor e trabalhar no que gosta».
Pois, minha mãe, concordo contigo. Creio que vale a pena estudar, vale a pena querer saber mais, lutar pelos nossos sonhos, tentar fazer o que gostamos e, mais do que tudo, gostar do que fazemos. Mas o mundo de hoje é tão diferente daquele que tu conheceste!
Hoje em dia «estudar» não é garantia de uma vida melhor. Não é garantia, sequer, de ter um emprego. Vejo tantas mulheres com cursos superiores (nos últimos 20 anos, a percentagem de mulheres nas universidades é muito superior à dos homens), à espera de oportunidades. Ou, quando as conseguem, a maior parte das vezes ganham menos do que os homens, nas mesmas funções. Mulheres competentes de todas as áreas, mulheres geniais e com condições precárias de trabalho, sem direito a segurança social, subsídio de maternidade ou desemprego. Mulheres que trabalham, estudam, fazem formações, mestrados, doutoramentos e continuam a querer aprender mais, ao longo da vida (e além disso, em muitos casos, com filhos, e/ou pais a seu cuidado).
A geração de mulheres de hoje talvez seja a mais qualificada de sempre. E, nem por isso, a que vive melhor, nem a que ganha melhor. Tempos duros, minha mãe. Também foram os teus, de outro modo. Continuaremos a batalha das mulheres independentes.
Confesso que também adoro a expressão. Herança tua. Sonho teu. Caminho, meu.
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| MULHERES INDEPENDENTES: UM SONHO E UM CAMINHO. |

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