“Já fomos mais silenciosas. Mas, ao ganhar o
direito à voz, nos tornamos mulheres aflitas, que não se permitem um
momento de quietude. Falamos, falamos, falamos compulsivamente, como se
fosse contra-indicado guardar-se um pouco, como se o silêncio pudesse
nos inchar. Já sofremos com mais pudor. Hoje nossas deprês são
extravasadas, distribuídas, ofertadas, viram capa de revista, como se a
dor fosse uma inimiga a ser despejada,
como se o sofrimento fosse algo venenoso e necessitasse de expulsão,
como se não valesse a pena alimentar-se dele e através dele crescer. Já
fomos mães mais atentas, que geravam por mais tempo, por bem mais do que
nove meses. Levávamos os filhos dentro de nossas vidas por longos anos.
Hoje temos mais pressa em entregá-los para o mundo, a responsabilidade
pesa, e como peso é tudo o que não queremos, acabamos por nos aliviar
dos compromissos severos de toda educação. Já fomos mais românticas.
Hoje o sexo é mais importante, queima calorias, melhora a pele e não
duvido que um coração vazio também ajude na hora de subir na balança.
Por um lado, conquistamos tanto, e, por outro, estamos nos esvaziando,
querendo tudo rápido demais e abrindo mão de aproveitar o que a vida tem
de melhor: o sabor, o gosto. Calma, meninas. Amor não engorda.
Discrição não engorda. Reflexão não engorda. Não é preciso se agitar
tanto, correr tanto, falar tanto, brigar tanto, nada disso é exercício
aeróbico, é apenas tensão. Nesse ritmo, perderemos a beleza da
feminilidade e acabaremos secas não só por fora, mas por dentro também.”

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