"Ele ficou de ligar às duas da tarde. Às duas
em ponto você estava plantada ao lado do telefone. Às duas em ponto o
telefone não tocou. Nem às duas e quinze. Nem às duas e meia. Nem às
três. Você liga pra ele e lhe comunicam que ele não está. Ninguém sabe
onde ele está. Quatro e meia. O telefone numa quietude petulante.
A imaginação, então, começa aquele exercício macabro de formular suposições. Onde ele está, afinal?
1. Ele está em casa, quietinho. Não ligou de propósito. Não atendeu o
telefone de propósito. Ele quer que eu me dê conta sozinha de que a
história acabou. Ele não tem coragem de terminar olhando nos meus olhos.
Prefere que eu fique com raiva dele, assim me conformo mais rápido. No
fundo, ele está se achando muito bonzinho, aquele pulha.
2. Ele não
ligou porque ficou chateado com o que eu fiz ontem. Foi isso. Mas que
diabo fiz ontem? Nós não brigamos. Não nos xingamos. Não falei mal da
mãe dele. Nem da camisa puída dele. Nem do timeco dele. Ficamos o tempo
todo no maior amasso. Eu fiz tudo certo, cacilda.
3. Ele conheceu
outra depois que saiu aqui de casa. Ele passou num bar para tomar a
saideira e viu a garota encostada no balcão. Chegou nela. Falaram.
Ficaram. Sairam juntos. Estão juntos até agora, cinco e vinte da tarde.
Eu quero morrer.
4. Morrer? Foi isso! Ele saiu daqui levitando de
paixão, atravessou a rua sem olhar para os lados e cataplum! Passaram
por cima. No tombo, perdeu a carteira de identidade. Foi levado para o
IML. Não o identificaram. Foi enterrado como indigente numa vala comum.
Impossível telefonar de lá.
5. Ele não morreu. Foi atropelado, mas
não morreu, só ficou com uns lapsos de memória. Esqueceu meu número.
Esqueceu meu endereço. Esqueceu que existe guia telefônico. E também não
sabe mais ver as horas.
6. Ele ligou. Ele ligou pontualmente às
duas, como estava combinado, mas eu não ouvi. Que silêncio é esse? Estou
surda. Socorro, estou surda.
Você está louca, isso sim. Basta
falhar a combinação e você já fica variando, criando mil fantasias na
cabeça. Você e a torcida do Flamengo. Por que ficamos tão enlouquecidos
com a desinformação? Por que estamos sempre achando que vamos ser
deixados de uma hora pra outra? Por que acreditamos tão pouco em
contratempos e ficamos a imaginar o pior? Simples: porque estamos
apaixonados. Acontece com as melhores cabeças."
(Martha Medeiros )

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