Dedicamos a maior parte de nosso tempo para as redes sociais e reservamos as sobras para a convivência. Às vezes a esposa e os filhos descobrem algo pelas postagens antes de nossa palavra e voz. Não é um sintoma de deslealdade?
Separamos as nossas folgas e distrações para abastecermos os nossos aplicativos com vídeos e imagens, para explicarmos o que estamos fazendo, para fingirmos uma alegria que não durará nem até a próxima postagem.
Sacrificamos os nossos descansos para permanecermos em evidência. São likes, risos e corações em uma série interminável de fotogramas. Tem gente, inclusive, que parece que não dorme tendo em vista os seus aplicativos sempre atualizados. Será que é um receio de ser tão pouco para nós mesmos?
Não há como parar sequer um dia, para não comprometer a desempenho e arriscar uma queda de seguidores. É uma compulsão para manter uma realidade paralela, em troca do desaparecimento gradual no próprio cotidiano.
A comida esfria porque temos a obrigação de fotografar o prato. A festa acaba porque nos distraímos atrás do clique perfeito. O bar esvazia porque os drinques pediam filtros.
Cultivamos miragens. Desistimos de conversar olhando nos olhos. Nossos abraços vão se esgueirando, nossos beijos se apressam em selos, o sexo nem terminou direito e já corremos para a tela luminosa do aparelho para ver o que perdemos entre os tweets do momento e as manchetes do Facebook.
A visibilidade vale o sacrifício? Não seria melhor ter permanecido mais tempo perpetuando hábitos com os amigos, aventurando-se nos afetos?
Estamos cada vez mais vivos na morte e fantasmas em vida, legando lacunas e imprecisões aos mais próximos.
Talvez as redes sociais apresentem mais informações sobre o morto do que os próprios familiares. É justo com quem dividimos a intimidade?
Não há despedida na virtualidade, pois, no fundo, não desenvolvemos a consciência da nossa finitude. Toda aquela atenção virtual custou uma enorme e irreparável desatenção.
O que demoramos a reconhecer é que a nossa biografia mora nas cenas que não foram publicadas. Elas que formam o legado que deixaremos, nada mais."
Carpinejar.
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