sexta-feira, 24 de março de 2017

QUEM DE NÓS DEIXOU DE QUERER:


QUEM DE NÓS DEIXOU DE QUERER

Quem de nós deixou de querer? 
Eu deixei de escrever, você parou de ligar.
A vida foi seguindo seu fluxo e eu me perguntando quem de nós deixou de querer? Quando deixamos de nos querer?

Houve um tempo em que nos amávamos. Víamos poesia e canção nas coisas mais tolas. Possuíamos o poder divino de dar vida e forma ao mundo ao nosso redor. Espaço e tempo estavam no mesmo lugar. Quando e onde se davam em tempo vetorial.

Nos entregamos inteiros e sem medo. Nosso amor tinha pulsação, tinha cheiro, tinha gosto. Nosso amor nos desorganizava as formas, nos descia às vísceras, aos músculos, aos ossos. 

Nós nos abismamos, nos arremessamos de penhascos, nos perdemos de quem éramos, nos encontrávamos em infinitos. A vida vibrava em cada célula do nosso corpo.

Esse tempo passou sem nos darmos conta, mas ainda hoje, ao me perguntarem do nosso amor, respondo que te amo. Amo, porque amei. 
É isso. 
Amo porque amei. 

Nosso amor não se encerrou ao fim de seu ciclo. Ele continua em mim, como parte da minha história, sendo um pedaço de quem eu sou. 

A intensidade com que nos entregamos nos dava a exata dimensão da vida que vivíamos. E viver é se doar. Viver é se deixar afetar apesar de toda couraça e todo embotamento afetivo. 

Nada acontece ao acaso, impunemente. Não existe o momento. Cada palavra dita, cada carinho trocado, cada olhar seu permanece em mim. Cada instante que vivemos ainda dura em mim, dando-me passado e futuro. Mas o presente nunca para de acontecer. A vida não está preocupada com nenhum de nós. Ela tem movimento e fluxo próprio. 

A vida seguiu seu caminho e, a despeito do nosso amor, escolheu nos afastar. Eu parei de te ligar. Você também não me procurou. Nosso tempo passou sem nos darmos conta. Mas ainda hoje, ao me perguntarem se te amo, respondo que sim, amo. Amo, porque amei. Mesmo que este amor não esteja mais lá, da mesma forma e no mesmo lugar. 


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