
Você é tudo que possuo, minha última tentativa, meu elo perdido.
Você é tudo que intuo e aposto todas as fichas, um achado,
Você é a luz no fim do túnel, um mundo encantado.
Horizonte distante, cenário deslumbrante ao olhar embevecido.
Como o sertanejo ao ver o solo rachado anseia pela tempestade,
Como quem conta os segundos de angustias na obscuridade
Desejoso do sol da manhã vindoura, redentora, da claridade.
Vejo-me triste, soturno, pesaroso, desanimado,
Nesse vale perdido, nessa terra de ninguém, nesse chão árido.
É que a razão pesa, as nuvens são de chumbo e o mundo vai desabar.
Falta-me o ar, a angústia me oprime, me aperta o peito feito torno,
Em torno, nada há, só desesperança, o mundo é cruel, é fel,
É um pedregulho girando no cosmo, é um entulho, engulho.
Ser humano é verme, um pouco mais crescido, acrescido de orgulho.
E não vejo beleza no mundo, só um vazio, um rio de silencio,
A desaguar por dentro, a me afogar, a me envenenar pouco a pouco.
Quero falar, mas, minha voz não produz eco, retorno,
Quero vomitar esse ácido que me assassina.
Só em você encontro chão, brisa, relva boa e afável,
Tua mão afaga meus cabelos, acalma meus medos, me anima.
Sua voz é musica agradável, é sinfonia aos meus ouvidos ensurdecidos,
Teu olhar acende meus olhos a muito apagados, entristecidos,
Cegos de tédio, de ver as mesmas coisas, enfastiados.
Tua alegria é uma festa, são rojões no ar, na noite dos meus dias.
Trazes canções inéditas, serestas, serenatas, orquestrações,
Vestida de festa, razões pra acreditar, ar aos pulmões,
Um folego a mais a esse afogado, náufrago de muito tempo.
A se entregar a essa ilusão inocente para não sucumbir,
Apenas pra sorrir um pouco, um riso pálido, inconsequente,
Deixando-se levar pela corrente sem saber aonde ir.
Fábio Murilo, 29.09.2014
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